amamentação, BLOG, mãe recém nascida

De mal com a natureza

A natureza me passou uma rasteira. Tinha deixado tudo nas mãos dela: gravidez (tranquila, ativa, quase sem exames) e parto (sem anestesia, sem medo, índio, de cócoras). Era justo então que confiasse a ela também a amamentação. – Livre demanda, a natureza dizia. Então o Theo passava horas e horas e horas no meu peito. E eu achando que a natureza estava cuidando de tudo. Até que sete dias depois do nascimento fomos a primeira consulta do pediatra, primeira pesagem, eu estava lépida e feliz , esperando a confirmação de que a natureza tinha feito o melhor trabalho do mundo. Mas quando o Theo subiu na balança a mãe feliz murchou. Ele não tinha recuperado o peso do parto, não tinha recuperado o peso da alta e ainda tinha perdido mais um tanto. Eu fiquei preocupada, mas o medico também confiava na natureza e continuamos deixando tudo na mão dela. Fomos em outro medico, pesamos de novo e o Theo um pouquinho mais magro. Liguei chorando para minha mãe, que ligou para o médico que cuidou de mim e ele falou: – Bebê só pode perder peso até o quinto dia, tá na hora de dar leite em pó para seu neto. Eu briguei com a mãe, falei mal do médico, eu não queria interferir na natureza.

Uma semana depois e Theo estava um magriça. A pesagem nova foi destruidora. Ele tinha perdido 500 gramas desde o nascimento. Rasteira. O diagnostico é que o Theo embora ficasse muito tempo no peito, sugava de verdade muito pouco, chupetava muito e dormia mais um tanto. Meu leite diminuiu, ele emagreceu. Comecei a dar o Nan (o leite da nestlé para bebês), me doeu tanto que era como se eu não tivesse mais peito. Comecei também a ordenhar meu leite depois que ele mamava, na busca de alguns mililitros que ele tivesse deixado para trás. No primeiro dia com a bomba elétrica na potência máxima, espremi a grande quantidade de 8ml. Não enchia uma colher de café. Me senti uma mãe murcha, a única no universo que não conseguiu dar de comer ao filho. Foi a época que eu produzi mais lágrimas do que leite.

Mas depois de uma semana o Theo começou a engordar, perdeu o ar de desnutrido e começou a mamar melhor, meu peito começou a produzir mais leite e eu embora exausta, esgotada, falida, ficava contente quando tirava 30 ml de leite e batia o recorde de extração. Achava que um dias as coisas iam se acertar, mais duas semaninhas e estaria tudo resolvido, voltaria para as mãos da natureza.

Claro que não foram duas semanas. Trocamos mais uma vez de medico, trocamos o jeito de dar o leite (não podíamos usar a mamadeira pois corríamos o risco do Theo nunca mais querer o peito). Demos o leite de seringa, no copinho, de canudinho acoplado no bico do peito. Aprendemos todas estas manhas com visitas semanais ao banco de leite do Instituto Fernandes Figueira, o lugar que aprendi além das técnicas, que eu não era a única mãe do universo que tinha problemas para amamentar o filho, só no Rio de Janeiro, na manhã de terça eram umas dez mulheres…

As duas semanas se passaram e eu ainda precisava do Nan. Eu quis bater na natureza! Fiquei emputecida que ela tinha descuidado de mim numa hora tão importante. Ainda chorava pelos cantos que nem uma Maria do Bairro de novela mexicana.

Hoje o Theo está com dois meses e meio. Quando eu lia nos sites sobre amamentação que toda mulher é capaz de produzir o leite necessário para o seu filho eu não podia acreditar que comigo ia também rolar. Eu estava mesmo de mal com a natureza. Mas a conta é simples, a gente produz o tanto que o bebê suga. Por isso eu ainda tenho que ordenhar depois de todas as mamadas, é o jeito de enganar o cérebro dizendo a ele que tem um bebê sugando que nem louco, mas hoje em dia eu tiro 80mls! Por isso ando ainda meio exausta, mas agora já faz duas semanas que o único leite que o Theo toma é o meu e isso me dá mais energia. Continuo tendo que usar o canudinho para o Theo, ainda tenho o meu pequeno arsenal de amamentação na cozinha (vidrinhos, sondas, esterilizadores…) mas agora estou mais alegre porque a produção de leite tem ganhado de longe a de lágrimas. Fiz as pazes com a natureza. Pensei aqui comigo que a natureza inventou o homem, e o homem o leite de fórmula. O homem inventou a teimosia. O homem inventou que quando a natureza não der conta, ele vai insistir até que ela dê.

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18 thoughts on “De mal com a natureza”

  1. Nossa amiga, fiquei emocionada com seu relato. Eita menino sapeca… Amiga mãe, com o olhar tão sensível que não cabe só lágrimas de tristeza. Um beijo carinhoso, Marina

  2. Fiquei emocionada com seu depoimento… Eita menino sapeca.

    Amiga mãe, com olhar tão sensível que não cabe só as lágrimas de tristeza.

    Um beijo carinhoso, Má

  3. Aqui eu to assim, muito mais lagrimas que leite, e já se passaram quase 2 meses. Mesmíssimo caso, perda de peso, pediatra receitando NAN, eu teimosamente rejeitando o NAN e insistindo no peito… as balanças me mostrando que meu peito só nao basta! Mas comecei a ordenhar hoje. 10ml!!! Eu vou vencer e ele VAI ficar só no meu peito. Tenho dado leite na sonda tbm… mas quero excluir o NAN da minha vida! É sempre bom ler relatos assim pra gente nao se sentir a pior das mulheres! Obrigada!

  4. Dito e feito: linkei este seu post-modelo. Cansei de dizer para a Maíra, que me mostrou o blog: é o post definitivo para falar da dor que é descobrir que não é tudo por conta da natureza. Obrigada, viu. Tá lá no meu blog. bjs

  5. nossa, temos historias mto parecidas. Meu filho ta com 1a3m (daqui 2 dias). Logo no primeiro mes tive mastite e pronto, meu filho q mamava q era uma beleza ficou privado de um peito por incapacidade de lidar com febre de 39,8C e dor (mta dor), mas depois enfiei em minha cabeca que ele nao iria deixar de mamar no peito se dependesse de minha vontade. Tive q iniciar o Similac (nao moro no Brasil, entao foi a melhor opcao na minha visao) e a primeira mamadeira dele eu virei e chorei mto. Meu marido que deu conta da mamada, e naquele momento eu tive certeza absoluta que daria o peito pro Alon ate no minimo ele completar 1 ano. (ele parou 4 dias antes sozinho!!). Usei 3 tipos de bombas eletricas e no final passei pra manual da avent, foi a unica que eu vi e senti sair leite, e nao aquele tantinho que te deixa mais encafifada se voce tem mesmo pouco leite!
    Ai chegou a hora dele ir pra propria cama. Compramos um berco, mas ele acordava mto, pra um nene q desde o inicio dormia mto bem. Colocamos ele na nossa cama, e ele dormia a noite inteira, ia pro berco, e de 2h/2h acordava. Ai resolvemos optar por colocar o colchao no chao, pq entendemos que ele se movimentar bastante era o que estava incomodando o sono dele dentro do berco. Dito e feito. Nunca mais acordou no meio da noite (isso com 9 meses! Ate entao ficou na cama compartilhada mm :D). Nos compramos uma cobra q envolve o colchao quase q inteiro, assim ele nao cai pra fora e uma mais baixa pra ele nao bater a cabeca na parede. Ele curtiu tanto a cama dele, o quarto dele, td dele ali pra ele alcancar q “ir pro quarto” sempre foi parte da brincadeira. Ele sobe na cama, se joga, se enrola, senta e se joga pra tras. E pura brincadeira. Depois de uns 2 meses descobri o quarto montessoriano e passei a ver o q mais eu poderia implementar ou mudar pro quarto ficar cada vez mais pra ele, pq afinal de contas e o espaco dele. Melhor coisa que fizemos e pro proximo nao ha duvidas.
    Desculpe o comentario longo, mas fiquei mto feliz de ler seu blog e ver a materia na internet. Espero que mais maes tenham acesso e vejam que o berco nem sempre e a melhor opcao, somente a mais tradicional. Quebrar as barreiras e tira-los da jaula (!!) pra eles poderem explorar…. a vida so ta comecando.

    1. Uhuuu! Viva o movimento dos sem-berço!

      E viva a amamentação, mesmo que com dificuldades. Vale a pena. Sempre.

      E viva os comentários longos. Adorei.

      Super beijo

      1. sabe q pra nao correr o risco do Alon nao querer peito, nos usamos uma sondinha de 20mm no dedo, da mamadeira direto pra boca dele… quase 2 meses. ai fizemos uma gambiarra num dos bicos da mamadeira e conseguimos colocar a sonda no bico da mamadeira, e pronto… qdo vi q nao tinha jeito dele querer mamadeira ao inves do peito, joguei td no lixo!!!! rsrsrs maior sensacao de vitoria nesse momento da minha vida! bjs

  6. Foi Lindo seu depoimento, tenho um bebê de 2 meses e meio e ainda brigo com a natureza, mão pela quantidade, que é verdadeiramente boa, mas pela dor nos seios, que até hoje ainda sinto, mas fale apena cada dorzinha, pois ele é saudável e lindo.

  7. Muito legal sua história com o pequeno Theo. Muito bom e emocionante! No final da tudo certo e eles crescem super fortes e espertos. Também passei por isso com o Cainã, tive que dar o Nan, coisa que eu também não aceitava, mas o pequeno era prematuro e não estava ganhando peso por não ter força suficiente para sugar tudo que precisava e aí partimos pra sondinha saindo direto na boquinha dele junto com o bico do peito. E foi só ele começar a ganhar peso e ficar mais fortinho que não precisei mais do Nan. Tb procurei o banco de leite do HUAP em Niterói, além de histórias na internet e foi muito bom saber que não estava sozinha e aprender com as histórias das outras mamães de primeira viagem 🙂

  8. Ahii que lindo!! tive o contrario, bebe engasgando com tanto leite e tendo retorno ,acordando toda molhada , trocando o protetor do peito a cada minuto , tento que deixar o bebe mamando sentadinho ! cada mae a sua dificuldade , mas, o importante é esta troca , este amor de mae que sempre quer o melhor para o filho! lindo!

  9. Marília,
    além de compartilharmos o mesmo nome, temos histórias parecidas. Tive a Maíra há um mês e meio e passamos por uma situação semelhante, no entanto, ela teve infecção urinária, provavelmente saiu do hospital já infectada e essa foi a razão dela não ganhar peso. Dei o peito, ela mamava horas e nada. Fora isso, me passaram informações controvérsias e no fim, ela ficou 3 semanas sem ganhar peso. Um dia, me veio na cabeça a fotinho do Theo e este post e resolvi ligar para a pediatra (aqui só se vai com 1 mês de idade). Consegui contornar toda a situação só com o peito, mas tive grande resistência à mamadeira, tb tentei usar o copinho e seringa. Enfim, agora estamos com 6 semanas de vida e ela ganhou 700 g em duas semanas e o peso estabilizou!
    Obrigada por compartilhar aqui as tuas experiências e fazer com que outras pessoas não se sintam tão sós!
    Bj,
    Marília
    P.S Estou fazendo os móbiles e a Mairinha está curtindo mto!

    1. Que legal Xará! Pois é, problema com amamentação não é fácil. Pra mim foi o perrengue mais difícil de toda minha história, e parecia que só eu é que não conseguia amamentar, por isso escrevi, foi muito terapêutico pra mim também. E fico feliz que vc tenha botado a mão na massa com os móbiles :). Sorte pra vc!

  10. Olá,
    Faço um trabalho de auxílio à amamentação e gostaria de te agradecer pelo relato e te dizer que sempre passo teu link para as mulheres que eu atendo e que estão vivendo histórias parecidas com a sua, como eu também vivi. Tua história é muito linda, fala da realidade e está ajudando muitas mulheres.
    Parabéns, és uma guerreira, uma mulher forte e consciente!
    Abraço

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