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A tiracolo

Quando era adolescente eu ganhei um ídolo emprestado do meu irmão. Não foi pouca coisa não, foi o Jimi Hendrix. Em casa, o André podia passar todo um, dois, três dias ouvindo a mesma música até ele mesmo conseguir tocar os solos alucinados na sua fender stratocaster, mesmo modelo que o Jimi usava. O volume era alto, e eu no quarto do lado não tive escolha, tive que me apropriar do ídolo. Fui  me impregnando de Little Wing, Stone Free e Voodoo Child e comecei entrar na brincadeira. Desafinada que sou, ficava colorindo os encartes das fitas K7s, desenhava com canetinha imitando as fontes psicodélicas do Flower Power, decorava as letras das musicas e assistia todos os documentários em VHS que aparecia lá nas tardes de casa. Em um desses filmes que reconstituíam a biografia do Jimi, lembro de um depoimento que me marcou profundamente. Um amigo dele contava que nunca tinha visto o Jimi sem sua guitarra a tiracolo. Podia ser jantar, noitada, passeio na calçada. A guitarra estava sempre a mão: ou estava tocando ou estava na iminência de tocar. Sempre a guitarra a tiracolo. Até que um dia, em agosto de 1970, ele encontrou o Jimi numa festa, sozinho, de mãos vazias, sem sua guitarra por perto. Alguma coisa estava errada. Um mês depois Jimi Hendrix morreu asfixiado com o próprio vômito em uma crise de overdose.

Eu não entendo muito de música, sei mal e porcamente tocar cinco canções no violão, nenhuma com mais de quatro acordes, mas esta história me emociona. Não consigo pensar em imagem mais bonita do que aquele homem existindo abraçado a sua guitarra, não consigo pensar em um objeto mais bonito do aquela faixa de pano colorida a tiracolo que os conectava. Eu queria aquilo pra mim, queria ter esta devoção, esta paixão imensurável. Jimi Hendrix sem guitarra já não existia mais.

Anos mais tarde fui fazer cinema, entrei na faculdade, comecei a fotografar e fiz de tudo pra estabelecer o mesmo tipo de relação com a minha câmera. Como eu queria fazer fotos lindas! Lia, estudava, sonhava. Mas não rolava. Em fases mais disciplinadas até que ficamos mais próximas, mas não chegamos a nos apaixonar. As fotos eram bonitas, mas nunca achei que alguma prestava para alguma coisa. Até que 2011 chegou. Não sei bem o que aconteceu, se é o retorno de Saturno, a chegada nos 30, as metamorfoses do último ano, o livro de criatividade quântica, mas estou sentindo mais, me emocionando mais, e daí preciso da minha câmera, preciso registrar, para os outros, para mim, a alegria que atravessa meus olhos. Uma foto é um sentimento, e quando ele vem a gente quer guardar.


 

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2 thoughts on “A tiracolo”

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